

O Hospital de Caridade Serro Azul promoveu, na quinta-feira, dia 19 de fevereiro, uma Mesa de Conversa sobre a Saúde em Cerro Largo, reunindo lideranças com poder de decisão para discutir, com transparência, a realidade atual da rede pública, seus limites e os caminhos possíveis para o fortalecimento do sistema.
O encontro reuniu o presidente da AHCASA, Leonardo Terra Leite, o diretor administrativo Ademir Hartmann, o diretor técnico Dr. Evandro, coordenador da Urgência e Emergência Vinicius Braga Silveira, além de enfermeiros e colaboradores do setor administrativo da instituição.
Representando o Poder Público, estiveram presentes o prefeito de Cerro Largo, Pedro Butzen, o presidente da Câmara de Vereadores, Neivo José Schmidt, e os vereadores Anderson Kessler, Jorge André Pires Lubas, José Emir Ramme, Valdemar Pinto Kilca, Vanderlei de Castro e William Vieira Barcelos, reforçando o caráter institucional e intersetorial do diálogo promovido. Representantes da diretoria da casa de saúde também participaram do encontro.
Desde a abertura, a direção destacou a relevância do momento. Segundo o presidente, a proposta não foi "procurar culpados", mas coletar dados, identificar melhorias e construir soluções conjuntas. O objetivo foi qualificar o debate, alinhar informações e fortalecer a atuação integrada entre hospital, Executivo, Legislativo e comunidade.
O prefeito Pedro Butzen afirmou compreender o encontro como uma oportunidade importante de buscar formas de otimizar o atendimento à população de Cerro Largo, compreendendo o hospital como de central importância para a oferta de uma estrutura de saúde que atenda às necessidades e anseios da comunidade.
Com base na apresentação institucional realizada pela AHCASA, foram aprofundados os principais aspectos que impactam diretamente o dia a dia da saúde municipal. A conversa abordou os anseios da comunidade, os limites operacionais, estruturais e financeiros enfrentados pela instituição, o funcionamento do plantão médico, os recursos disponíveis, os termos do contrato firmado entre hospital e município, além dos conceitos técnicos que diferenciam urgência, emergência e atendimento eletivo, com destaque para a aplicação do Protocolo de Manchester na classificação de risco.
Um dos pontos centrais do encontro foi a análise técnica dos dados de 2025. O plantão hospitalar registrou 13.194 atendimentos no período, sendo 1,90% classificados como Vermelho (emergência), 12,22% como Amarelo (urgente), 38,98% como Verde (pouco urgente) e 45,16% como Azul (não urgente). Na prática, isso significa que 84% dos atendimentos correspondem a casos pouco ou não urgentes, enquanto apenas 14% configuram efetivas urgências ou emergências, que são atribuições do hospital.
A partir desses números, destacou-se que o principal desafio enfrentado hoje não está relacionado à falta de médicos, mas sim à organização do fluxo assistencial e ao uso adequado da rede de saúde. Quando casos que poderiam ser resolvidos na Atenção Primária procuram o plantão hospitalar, o sistema fica sobrecarregado e as emergências reais acabam impactando todo o processo de atendimento.
Também foi evidenciado o crescimento expressivo da demanda ao longo dos últimos anos. Desde 2019 até 2025, o volume de atendimentos no plantão aumentou 26%. No mesmo período, os exames de imagem tiveram incremento de 100% e o número de cirurgias realizadas cresceu 476%. Os dados demonstram a ampliação dos serviços prestados pelo hospital e o esforço contínuo de modernização e expansão da estrutura.
Durante a explanação, foi reforçado que o Protocolo de Manchester não estabelece ordem de chegada, mas sim prioridade conforme o risco à vida. Pacientes classificados como Vermelho e Amarelo recebem atendimento imediato ou prioritário, enquanto os enquadrados nas categorias Verde e Azul - considerados pouco urgentes ou não urgentes - podem aguardar com segurança ou, idealmente, deveriam ser atendidos na Unidade Básica de Saúde.
Outro ponto importante foi a desmistificação da chamada "demora no atendimento". Conforme os dados apresentados, o primeiro contato assistencial raramente ultrapassa 15 minutos. Essa etapa inicial, a triagem, é realizada por profissional de saúde habilitado, que avalia o quadro clínico e define a classificação de risco. Embora muitas vezes não seja percebida como tal, a triagem já configura atendimento efetivo e é fundamental para organizar o fluxo com segurança.
O Dr. Vinicius Braga Silveira, coordenador da Urgência e Emergência, destacou que "cada paciente precisa estar no lugar certo", enfatizando que emergências reais exigem mobilização imediata da equipe e, quando há grande volume de casos não urgentes no plantão, todo o processo pode sofrer atrasos. Foi ressaltado ainda que a percepção de um pronto atendimento momentaneamente vazio não significa hospital ocioso. A instituição mantém diversas atividades simultâneas - como internações, exames e demais procedimentos - que demandam estrutura, profissionais e recursos, independentemente do movimento visível na recepção.
Foi apresentado o resumo executivo do contrato entre hospital e Prefeitura, que contempla atendimento de urgência e emergência, mas não prevê atendimento eletivo 24 horas.
Outro ponto sensível discutido foi o conflito entre contrato com valor fixo e demanda assistencial livre. Enquanto o hospital recebe valor pactuado independentemente da demanda, o crescimento contínuo de atendimentos - especialmente casos verdes e azuis - pode gerar desequilíbrio financeiro progressivo, comprometendo a sustentabilidade futura do serviço.
O diretor Administrativo ademir Hartmann destacou que, há 15 anos, o hospital era significativamente menor. A instituição investiu, modernizou estrutura e ampliou serviços. Entretanto, as UBS continuam com horários restritos, o que impacta diretamente na procura pelo plantão hospitalar.
Os participantes do evento foram convidados a compartilhar suas experiências e percepções sobre o funcionamento do hospital. Especialmente os vereadores, que são frequentemente procurados por cidadãos diante de dúvidas ou insatisfações, relataram situações vivenciadas no dia a dia e ressaltaram a importância da iniciativa. Para muitos, o encontro representou uma oportunidade concreta de compreender com maior profundidade a realidade operacional da instituição, o que contribui para orientar melhor a população e qualificar o debate público.
Os profissionais que atuam no Pronto Atendimento também se manifestaram, destacando que a aproximação com as lideranças fortalece o diálogo institucional. Segundo eles, quando há alinhamento de informações e entendimento técnico, torna-se possível construir pontes mais sólidas com a comunidade. O objetivo comum, reforçado por todos, é garantir que o cidadão seja o principal beneficiado, com atendimento mais organizado, comunicação mais clara e uma rede de saúde cada vez mais estruturada e eficiente.
Ao final do encontro, consolidou-se a principal mensagem da noite: a saúde pública não é responsabilidade isolada de uma instituição, mas resultado de uma construção coletiva que exige maturidade, diálogo e corresponsabilidade. Hospital, Prefeitura, Câmara de Vereadores e comunidade precisam atuar de forma integrada, técnica e responsável, compreendendo seus papéis e limites dentro da rede.
Ficou evidente que os desafios não serão superados com medidas pontuais ou discursos isolados, mas com organização, planejamento e equilíbrio. Entre os encaminhamentos discutidos, destacou-se a necessidade de repactuação contratual com equilíbrio econômico, garantindo sustentabilidade financeira ao hospital sem comprometer o acesso da população. Também foi reforçada a importância de organizar o fluxo assistencial, assegurando que cada paciente seja atendido no nível adequado da rede, fortalecendo a Atenção Primária e respeitando os mecanismos de regulação, como GERCON e GERINT.
O planejamento com responsabilidade fiscal foi apontado como condição indispensável para a continuidade e a qualidade dos serviços. Mais do que ampliar estruturas, é necessário alinhar expectativas, ajustar contratos e garantir que os recursos disponíveis sejam aplicados de forma estratégica.
O encontro cumpriu seu propósito ao promover um diálogo franco, esclarecer conceitos técnicos e aproximar as lideranças da realidade operacional do hospital. Mais do que apresentar números, a AHCASA buscou construir consciência coletiva: a saúde que se deseja para o município depende de decisões técnicas, equilíbrio financeiro e cooperação institucional permanente.